O setor marítimo brasileiro inicia 2026 com um movimento relevante na agenda de descarbonização: o início do tour técnico do JAQ H1, embarcação de 36 metros movida a hidrogênio verde (H2V), que percorrerá o litoral brasileiro de Belém (PA) ao Rio Grande do Sul.
O projeto representa um teste em escala real da aplicação do hidrogênio verde na navegação e antecipa, na prática, a regulamentação do Marco Legal do Hidrogênio, prevista para os próximos meses.
Validação operacional do hidrogênio verde na navegação
O JAQ H1 opera com motores híbridos dual-fuel da MAN, capazes de utilizar uma mistura composta por 20% de hidrogênio verde e 80% de diesel. A configuração permite redução de até 80% das emissões de CO₂, dependendo do perfil operacional, mantendo a possibilidade de reversão integral ao combustível fóssil.
A estratégia técnica segue uma lógica de transição gradual — fundamental em setores de difícil eletrificação, como o transporte marítimo. Diferentemente de embarcações totalmente elétricas, que enfrentam limitações de autonomia e infraestrutura de recarga, o modelo híbrido preserva segurança operacional enquanto testa a viabilidade energética do H2V.
O tour técnico terá como objetivos:
- Coleta de dados operacionais em diferentes rotas e condições marítimas
- Avaliação de desempenho e eficiência dos motores híbridos
- Testes logísticos para abastecimento de hidrogênio verde em portos nacionais
- Análise de viabilidade comercial da solução
A embarcação também participará do Rio Boat Show 2026, na Marina da Glória, funcionando como plataforma de demonstração tecnológica.
Marco Legal do Hidrogênio e segurança regulatória
A operação do JAQ H1 ocorre em paralelo à consolidação do arcabouço jurídico do hidrogênio no Brasil.
A Lei nº 14.948/2024 instituiu a Política Nacional do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, enquanto a Lei nº 14.990/2024 criou o Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC). A regulamentação definitiva, aguardada pela Casa Civil, deverá definir critérios técnicos, certificações e acesso aos incentivos fiscais.
Entre os instrumentos previstos estão:
- Rehidro, regime especial que suspende PIS e Cofins sobre equipamentos e insumos
- R$ 18,3 bilhões em créditos fiscais entre 2028 e 2032
- Definição de critérios para habilitação de projetos estratégicos
Ao iniciar a operação antes da regulamentação final, o projeto contribui para que as normas nasçam fundamentadas em evidências técnicas reais, reduzindo assimetrias regulatórias e incertezas de mercado.
Pressão internacional e metas da IMO
O movimento brasileiro também dialoga com as metas da Organização Marítima Internacional (IMO), que votará em outubro de 2026 o Marco de Emissões Zero. A proposta prevê penalidades que podem chegar a US$ 380 por tonelada de CO₂ emitida acima dos limites estabelecidos, com possível vigência a partir de 2028.
Esse cenário cria pressão econômica significativa para armadores globais. A transição para combustíveis de baixo carbono deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a representar uma variável crítica de competitividade.
Nesse contexto, projetos-piloto como o JAQ H1 posicionam o Brasil de forma estratégica na cadeia global do hidrogênio.
Porto do Açu e a expansão do projeto
O Porto do Açu passa a atuar como base oficial de testes, contribuindo para estudos logísticos e estruturais voltados ao abastecimento de hidrogênio verde aplicado à navegação.
O investimento privado estimado em R$ 150 milhões contempla ainda a construção do JAQ H2, embarcação de 50 metros com entrega prevista para 2027. O novo modelo deverá contar com eletrolisador embarcado, capaz de produzir hidrogênio a partir da dessalinização da água do mar.
Essa solução reduz a dependência de infraestrutura portuária dedicada e representa um avanço relevante na autonomia energética da navegação de baixo carbono.
Integração com o setor elétrico e expansão da cadeia do H2V
O avanço do hidrogênio verde na navegação amplia a integração entre:
- Geração renovável
- Eletrólise
- Cadeias logísticas de armazenamento e transporte
- Novos mercados consumidores de energia limpa
A consolidação do H2V como vetor energético depende diretamente da oferta de energia renovável competitiva, infraestrutura portuária adequada e segurança regulatória.
Mais do que uma inovação naval, o tour do JAQ H1 integra uma estratégia de posicionamento do Brasil na economia global do hidrogênio, conectando política industrial, transição energética e inserção internacional.
Conclusão
A antecipação operacional do JAQ H1 simboliza uma mudança estrutural no setor marítimo brasileiro. Ao combinar validação técnica, articulação regulatória e alinhamento às metas internacionais de descarbonização, o projeto sinaliza que a transição energética na navegação deixou o campo conceitual e entrou na fase de implementação prática.
Se bem estruturada, essa convergência entre tecnologia, regulação e mercado pode transformar o Brasil em protagonista na economia do hidrogênio verde e na descarbonização do transporte marítimo.

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